Angélica Adverse é doutoranda e mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. É também especialista em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Desenvolve trabalhos em moda e pesquisas sobre Artwear. Recebeu o prêmio internacional Smirnoff International Fashion Awards e Revelação de Jovens Talentos da Moda Brasil. Lecionou na Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais e no curso Design de Moda da Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente é docente na Escola Guignard da Universidade do Estado de Minas Gerais e nos cursos de Design e Pós Graduação em Design de Moda da Universidade FUMEC.

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Pela Estação das Letras e Cores, lança o livro Moda: Moderna Medida do Tempo – O Futurismo Italiano e a Estética do EfêmeroAqui no blog,  mostramos uma conversa entre a autora mineira e Kathia Castilho, editora dos projetos de Moda da Estação. Na entrevista, Angélica fala de sua nova obra e de suas contribuições para a área acadêmica. Um bate papo riquíssimo e cheio de informação.

Kathia. O que vamos encontrar em Moda: Moderna Medida do Tempo – O Futurismo Italiano e a Estética do Efêmero?
Angélica – Um estudo sobre o encontro entre a arte e a moda que propõe observar a transformação de ambos. Em meu estudo procuro analisar como a moda foi importante para os artistas no início do século XX representarem a experiência do efêmero nas artes. A ideia em questão seria discutir como a arte poderia ser tão efêmera quanto à moda, a partir de seu encontro com o espaço social. As questões que envolvem a discussão sobre arte-vida são fundamentais para se observar a produção de roupas, acessórios e objetos que almejavam modificar a tradição da moda europeia no início do século XX.

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O livro “Moda: Moderna Medida do Tempo” é o resultado de uma pesquisa sobre as criações futuristas que reivindicavam o espaço da moda para o seu trabalho.

Com intuito de inserirem a arte no âmbito de uma produção industrial, os artistas futuristas proclamaram não o fim da arte, mas sim o fim de uma vida separada de sua instância. Para isso, romperam com as hierarquias e maneirismos acadêmicos da criação plástica utilizando novos suportes, novos materiais e proclamando o vestuário como parte de um projeto de integração da criação artística. A arte seria responsável em transgredir os habitus e maneirismos de estilo da tradição vestimentar europeia, portanto, os artistas proclamavam re-significar a aparência plástica do corpo masculino e do corpo feminino propondo a exaltação dos elementos dinâmicos e plásticos da modernidade estudados pelo futurismo. Por essa ótica, haveria uma valorização da roupa como forma e do espaço social como pictural. A moda deslocaria o foco do indivíduo para o corpo coletivo que representaria a dinâmica da arte futurista italiana.

A Moda pode ser entendida como a medida de qual tempo? Do nosso?
Parece à primeira vista uma questão óbvia, contudo, a “moderna medida do tempo” pode ser compreendida pelo viés da intempestividade. Negar ou esquecer o passado recente é um propósito do mecanismo de ação da moda. Contudo, essa medida é concernente às fraturas e descontinuidades por ela apresentada. O nódulo da questão é tentar entender como se efetuam as experiências temporais da moda de maneira que possamos pensá-las ou percebê-las.

A moda torna-se uma linguagem de apresentação e reconhecimento dos sonhos de trânsito e de mudança, que se efetuam na medida em que se constrói no espaço social um imaginário em torno da novidade.

A medida do tempo é, portanto, o reconhecimento do movimento que ocorreu e do seu devir. O entendimento a respeito dessa medida não invalida o passado, ela  desencadeia um jogo de relações entre passado e presente que por meio dessa experiência a apreensão sensitiva do contemporâneo torna-se mais potente. Talvez possamos observá-la como um jogo de relações temporais que desconstrói o historicismo da própria história da moda. A moderna medida do tempo diz respeito à configuração da relação entre espaço/tempo presente no próprio conceito de moda, ou seja, no modo como se configuram as transformações culturais e históricas a partir de seu entendimento como uma reflexão sobre a moralidade da estética e do gosto em um determinado período histórico.

Por que ler Walter Benjamim hoje para pensar a moda?
Primeiramente porque Walter Benjamin observou a moda por seus desvios, como ele mesmo definiu: “método é desvio”. Como disse anteriormente, o sentido de romper o historicismo o conduz a uma nova escrita historiográfica baseada em imagens. A tentativa de se escrever a história a “contra-pêlo” é um método que o conduz a apontamento de questões e investigações sobre o paradoxo da moda na modernidade. Para Walter Benjamin, a moda é uma alegoria da decadência e não da novidade, há na moda um dinamismo interno temporal que irrompe com o sentido do eterno. Essa abordagem é fundamental para uma discussão sobre a estética e Benjamin irá encontrar esses elementos em Giacomo Leopardi, Charles Baudelaire, Louis Aragon,etc.

A moda é essencial em Walter Benjamin para a abordagem histórica do belo, por ser um elemento temporal que introduz mudanças nas criações e nos fenômenos da cultura de massa. 

O projeto da Passagens representam como a moda se inscreve em nossa história como um fenômeno social total. A sua análise investiga os diferentes espaços de sua atuação como a arquitetura, a publicidade (reclame), a literatura, os movimentos sociais (dandismo, sufragettes…), a literatura (romantismo/decadentismo), etc. Por meio do desvio Benjamin optou em analisar a moda pelo fragmento, pela colagem e montagem. Há em cada arquivo do projeto das Passagens uma abordagem sobre o fenômeno da moda como algo que assinala a vivência da experiência da modernidade. A moda é para Walter Benjamin parte de um fenômeno urbano desencadeado pelo processo de modernização e por este aspecto, instaura uma relação ainda mais paradoxal na modernidade entre o novo e o decadente. Para o filósofo deparar-se com o antigo seria observar como cada época sonhou com o seu próprio futuro: “Tratar do mundo das coisas como se fossem sonhadas”. Assim, cada época possui a sua dimensão onírica. A novidade é segundo o autor, resultante da mitologia moderna na qual todas as coisas são imersas pelo sonho da novidade.

Para W. Benjamin, a moda seria o mais importante fenômeno da sociedade moderna a “antecipar” uma realidade perceptível. A produção do novo corresponde a uma expressão cultural que substitui os antigos ritos de mudanças. Nesse sentido, o culto à novidade cria uma nova existência social ancorada no prazer que obtemos do atual e do contemporâneo. Acredito que os apontamentos de Walter Benjamin são valiosos para pensarmos a moda como um mecanismo do sonho nas sociedades de consumo. As imagens oníricas apresentadas pela moda são importantes para entendermos qual é o sentido da antecipação na nossa cultura contemporânea.

De certo modo, a antecipação tornou-se um “valor supremo” que reflete (como diria o próprio Benjamin) o inconsciente e o imaginário social coletivo.  É pela adoração ao novo que surgem os especialistas (arbiter novarum rerum – o árbitro das coisas novas). Em nossa contemporaneidade o árbitro das coisas novas pode ser pensado como um maven, um coolhunter, um trendsetter, etc,  como aquele que apresenta novidades e constitui um mundo inventado, sonhado…Há no trabalho desses profissionais algo semelhante aos “sonhos de futuro”. Não seriam as “tendências” os nossos sonhos de futuro?

A experiência de lermos Walter Benjamin nos leva a pensar sobre os processos do “despertar”, ou seja, nos leva a interagir criticamente com um mundo específico das coisas imaginadas, sonhadas e inventadas pela moda. Por intermédio delas observamos as forças e as concreções que explicitam as distâncias, as relações de poder e as forças agregadoras dos padrões moralizantes. Quando lemos Walter Benjamin podemos pensar a moda como uma zona de limiar que constitui um trânsito entre o “sonho” e a “vigília”.

Quais seus planos de estudos futuros?
Estudar. Pretendo dar continuidade a pesquisa sobre as manifestações da arte e moda nos séculos XX e XXI.

Você leciona em Belo Horizonte, que sempre apresenta propostas de moda muito interessantes.  Pode nos contar mais sobre as disciplinas que leciona?
Leciono no Curso de Design da Universidade FUMEC e na Escola Guignard. As disciplinas são: Desenho, Planejamento e Desenvolvimento de Coleção, Arte e Moda. A disciplina na Escola Guignard é voltada à pesquisa sobre a artwear (o nome da disciplina é sui generis: A Moda como Medium de Reflexão nas Artes). Talvez seja a única escola de Arte no Brasil a oferecer um curso que apresente em sua grade, uma disciplina sobre moda. A pesquisa na Escola Guignard tem sido muito enriquecedora, pois abordamos questões sobre a moda como um medium de reflexão, ou seja,  por um “desvio” do conceito benjaminiano, no qual a reflexão torna-se uma ação libertadora do caráter intuitivo da criação artística que o conduz ao reconhecimento do Si.

Como tem se organizado a moda, e o calendário de apresentações de coleções em Minas Gerais? Como você participa deste cenário?
Meu trânsito no mercado de moda tem sido pontuado de maneira mais gradual devido à pesquisa acadêmica. Ofereço consultoria para algumas empresas e esse é um trabalho de infra-estrutura (não gera a visibilidade de um trabalho criativo). Atendo empresas que necessitam de pesquisa de tendências e comportamento de consumo, pesquisas conceituais e ilustrações. Acho que vivenciar o trânsito entre a pesquisa acadêmica e o trabalho prático ajuda a encontrar um meio termo entre o processo empírico e pesquisa teórica.

Pode nos contar sobre o projeto que fez e mais te emocionou recentemente?
Foi um projeto realizado em parceria com a designer Ana Luíza Gomes e com o fotógrafo Tom Andrade. Por uma feliz coincidência, fui convidada pela agência Greco Design para criar um trabalho sobre “Moda e Tempo” para a publicação anual “Palíndromo”, da Rona Editora. Fiz uma pesquisa sobre os alfaiates observando as questões sobre o tempo, a memória e a criação artesanal. Documentei fotograficamente o processo de criação dos alfaiates e o desenvolvimento conceitual do editorial juntamente com os stylists André Miamoto e Rafaela Ianni e a beauty stylist Cássia Peroco.

* Abaixo, imagens do projeto que Angélica fala: