Carol Garcia é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, docente universitária e autora de Imagens errantes: ambiguidade, resistência e cultura de moda, publicado em 2010 pela Estação.

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No entanto, ela ainda é viajante, dessas que tem a sorte de sua profissão lhe proporcionar experiências além escritórios. Atua como coolhunter e consultora para negócios da moda em diversos países, e por isso já passou pela Índia, México, China, Japão, França, Inglaterra, Itália, República Tcheca, Tailândia, Nepal, Chile, Uruguai, Colômbia, Estados Unidos, entre outros. 2012, por exemplo, tem sido um ano de muitos aeroportos, diferentes vivências e alguns milhares de quilômetros a mais de bagagem e aprendizado.

Convidamos a Carol pra escrever uma espécie de diário de suas viagens pra gente. O resultado é um texto delicioso, que fala de moda, cultura e conta as emoções vividas por ela nos últimos meses.

DIÁRIOS ALADOS
Quem já folheou Imagens errantes: ambiguidade, resistência e cultura de moda sabe muito bem. Nada de escritórios confortáveis, livros organizados, papéis bem dobradinhos. Eu gosto mesmo é das curvas poeirentas das ruas, das risadas volumosas das pessoas, dos encontros e desencontros com imagens nas quais moram muitos pretéritos, a maioria deles imperfeitos, e onde descansa o futuro do presente dessa conturbada e deliciosa economia criativa. Logo, minha alma de pesquisadora pode ser classificada, no mínimo, como indomável.

Eu não sei se a culpa é da guerreira Iansã, senhora brasileira dos ventos e das tempestades; ou do sagaz Hermes, deus patrono dos viajantes, dos jornalistas e dos ladrões. Na medida em que furto histórias prensadas nos significados simbólicos das imagens que vagueiam, errantes, na aparência humana, acho que incorporo um pouco de ambos. E, nos últimos meses, a situação tem se complicado tremendamente.

Minha pesquisa, de temperamento nômade desde sempre, tem andado ainda mais serelepe nesse bem aventurado ano de 2012, pegando carona nos pés alados dos deuses.

A primeira escala foi Goreme, na Capadócia, a caminho de Istambul, onde participei, em maio, da International Conference of Communication, Media, Technology and Design,discutindo a cultura de moda brasileira com colegas de países tão distantes quanto o Líbano ou a Estônia. Ao sobrevoar a terra de São Jorge num balão, aprendi que, nas bordas da Anatólia, turcos, uzbequis e iranianos usam chitas tão bacanas quanto as nossas, sob camadas de bordados com técnicas milenares, também usadas para confeccionar tapetes. Semanas depois, enquanto os folguedos juninos ardiam no Brasil, lá estava eu em Milão, desta vez apresentando o panorama acadêmico e a produção teórica brasileira na plenária do congresso mundial de moda Fashion Tales, promovido pela Università Cattolica del Sacro Cuore, como representante da ABEPEM – Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas em Moda. Foi ali que descobri que as chitas também passeiam pelo deserto de Najd, no reino da Arábia Saudita, nos trajes dos beduínos e na investigação primorosa de Laila Saleh Al-Bassam e Tahani Nasir Saleh Alajaji, pesquisadoras da Princess Nora Bint Abdul Rahman University, que, pela primeira vez, saíram de sua terra natal para compartilhar esses achados. Se você estuda indumentária, anote essa referência.

*Fotos tiradas na Turquia

Julho foi a vez da Colômbia, onde me fascinam as cretonas, chitinhas formosas que entraram no território latino por obra e graça dos piratas do Caribe. Lá ministrei um curso de Coolhunting para empresários e estudantes de diversos países da América, reunidos na Colegiatura Colombiana, universidade na qual tenho a alegria de poder voltar anualmente como docente convidada.

Em setembro, Fashioning the City, primeira conferência internacional de moda organizada pelo Royal College of Arts, levou-me à Grã-Bretanha em plena London Fashion Week, para conhecer de perto as pesquisas incríveis de Karina Nobbs, do London College of Fashion, a número um quando o assunto são lojas-conceito. Foi quando caí para trás com os aplicativos da Holition, uma espécie de Apple para o varejo de moda, orgulhosamente nascida na universidade. Essa eu quero que você veja, portanto não vou comentar: http://www.holition.com.uk

*Imagens da Colômbia

Por outro lado, pela primeira vez, fui admitida no venerável Warburg Institute, a biblioteca-meca das imagens errantes pagãs, e fiquei emocionada em folhear obras medievais de um acervo precioso. Claro que também sacolejei pelo East End, reinventado pelos artistas e pelas Olimpíadas, para abraçar com tudo o London Design Festival. O tema da temporada são os animais e eu diria que águias, esquilos, lobos, raposas, aranhas e tartarugas, além do indefectível jaguar, são as novas caveiras, ou seja, a bola da vez quando o assunto é estamparia. Sombras da Noite encontra Branca de Neve e o Caçador!

Harvey Nichols criou lindos efeitos visuais em vitrines inspiradas na fauna de bosques e florestas, com espaço até para índios norte-americanos. Enquanto isso, a Top Shop, recém-chegada em São Paulo, mas velha conhecida dos ingleses, orquestrava no Twitter muitas ações com seus clientes, além de coleções-relâmpago com jovens talentos, incluindo o brasileiro Lucas Nascimento.

Na New Bond Street, Victoria’s Secret abriu sua primeira global store fora do mercado americano (previamente, houve um test drive em Istambul) com cara de flagship – acho que vem aí um player importante no varejo global de moda íntima. Primark, a fast fashion popular, abriu outra megastore em Tottenham Court Road, mostrando que a crise econômica arreganha os dentes e fashion é economizar! E, nos desfiles, adorei ver Dev Patel na primeira fila da Burberry – star bollywoodiano em passarela tradicional é uma espécie de O Imperio Contra-ataca. Pois é, o BRIC avança.

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*Londres

Enquanto escrevo essas linhas, flutuo, ao sabor de outras imagens errantes, na direção do Marrocos. Minha próxima escala, em outubro, é o Centre Culturel Jacques Berque, de Rabat, para discutir os trajes das indígenas zapotecas em plena cultura berbere. Logo depois, já em novembro, jogo a âncora em Guimarães, para o Cimode – Congresso Internacional de Moda e Design.

Afinal, para mim, foi em Portugal que tudo começou oficialmente.

Como os aventureiros dos séculos XV e XVI, que saíram de casa para buscar especiarias em diminutas naus, encontrei muitas outras riquezas e vi que o mundo, vasto mundo, ainda tem muito para me deslumbrar. Não é a toa que Imagens errantes: ambiguidade, resistência e cultura de moda está sendo reinventada numa nova edição, que promete vir com bônus track, incluindo essas – e muitas outras – histórias.

Sempre centrada no desejo indômito de perseguir as imagens que vagueiam pelo universo da moda e dando a elas novo significado e presença, aquilo que o pesquisador alemão Aby Warburg chama de nachleben, ou pós-vida. Ora insuflando tendências; ora assimilando desejos. Mas, sobretudo, teimosamente buscando significado no emaranhado de inconstâncias com as quais elas e nós, os seres humanos que as carregam como segunda pele, nos debatemos.