mirian

A antropóloga Miriam Goldenberg, 54, se dedica a estudar e escrever sobre comportamento humano há mais de vinte anos. Entre seus temas: corpo, sexo, envelhecimento, mulher, casamento, felicidade e infidelidade. Seu trabalho é discurso presente quando a vontade é questionar o universo feminino. Pela Estação é autora de O corpo como capital: estudos sobre gênero, sexualidade e moda na cultura brasileira.

Aqui, nós te apresentamos a Mirian, e ela de quebra responde algumas perguntas sobre seus anos de estudo em seu principal tema: o corpo, especialmente o brasilieiro e feminino, e seu valor.

Blog da Estação. Você se dedica a estudar corpo e comportamento há mais de 20 anos, certo? Em um país como o Brasil, qual é a importância de falar sobre esses assuntos?
Mirian. No Brasil, o corpo é um verdadeiro capital. Muitas mulheres investem no corpo-aparência muito mais do que em outros capitais. Ela é obrigada socialmente a cuidar do corpo, muito mais do que em outras culturas. Aqui, os números de cirurgias plásticas, salões de beleza, academias de musculação etc revelam o mercado da beleza, um dos maiores mercados do Brasil.

Falar de corpo é falar dos valores da nossa cultura.

Refleti sobre o corpo por perceber que ele está presente em todos os domínios: perguntei sobre casamento, amor e infidelidade, e as mulheres falaram de corpo, do medo de envelhecer, do pavor de engordar.

livro-Corpo-como-capitalDiante de tantos estudos, hoje: o que mais chama a sua atenção sobre o que pensa e sente a mulher brasileira? O que chamei de “miséria subjetiva”. As brasileiras conquistaram um poder objetivo inegável em nossa cultura. Mas o discurso das mulheres que pesquiso é muito voltado para a decadência do corpo e para a falta de homens. Elas centram seus discursos nas faltas, perdas, imperfeições, não no poder real que conquistaram. Um discurso de miséria subjetiva, de desvalor, de falta de reconhecimento, de extrema preocupação com o envelhecimento.

O livro Corpo como capital discute muito a condição feminina brasileira em relação com o corpo. Você acredita que o valor que o corpo tem aqui para a mulher é diferente de outros lugares? Como e por que? Comparo o Brasil com a Alemanha. Lá, aos 60, as mulheres estão falando de conquistas, trabalhos, viagens, vida cultural.

Aqui, aos 30, as mulheres estão falando do medo de envelhecer e da falta de homens. É uma diferença tão gritante que revela o valor do corpo em nossa cultura.

Quais as coisas mais interessantes e surpreendendes que aprendeu estudando a mulher? O interessante foi perceber que além do corpo ser um capital na nossa cultura, o marido também é. As mulheres que têm marido e acreditam que ele é fiel, e vivem um casamento satisfatório, sentem-se vitoriosas e felizes. Sentem-se superiores pq sabem que o mercado matrimonial é extremamente desfavorável para as mulheres mais velhas. Quando conseguem o capital marital, elas deixam se se preocupar tanto com o corpo e passam a investir mais na vida amorosa e familiar. As mulheres mais velhas, especialmente depois dos 50,60, se libertam também da extrema preocupação com o corpo, e passam a valorizar a liberdade. E dizem “é a primeira vez que posso ser eu mesma, é o melhor momento da minha vida”.

Não perde: www.miriangoldenberg.com.br