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No dia 4 de abril, a Estação das Letras e Cores celebra e apresenta seu novo título: Jovem Guarda – moda, música e juventude. O livro é de autoria de Maíra Zimmermann, doutora em História, mestre em Moda e especialista em Jornalismo de Moda; e traz as delicadas ilustrações de Douglas Do Amaral. Nele, a autora conclui uma tese começada há anos atrás em sua monografia de graduação.

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O tema escolhido, não só abre caminhos e propõe discussões há muito tempo adiadas, como valida e fortalece o movimento nacional de música e moda criado por volta de 1960. A obra de Maíra acaba carregando um valor de memória e é indispensável pra quem deseja entender melhor a juventude brasileira, ontem e hoje.
Para o Blog da Estação, ela falou sobre mais sobre como foi escrever seu primeiro livro.

Estação – Jovem Guarda: moda, música e juventude: conta um pouco sobre o que trata o livro pra gente?

Maíra – O livro trata da construção de um estilo de vida jovem no Brasil dos anos 1960 e veio lá da minha dissertação de mestrado em Moda, Cultura e Arte. Ah, uma questão que é importante destacar: existe, desde então, uma ideia circulando: a Jovem Guarda seria alienada e foi cópia de um modelo internacional. Acredito que o meu livro ajude a rever essa posição. De fato, os integrantes da Jovem Guarda nunca se envolveram em questões ditas engajadas, porém, tiveram papel fundamental na quebra de costumes nos anos 60. Inegavelmente, a referência da música e da moda é norte-americana e britânica, mas essa mistura do estrangeiro com o nacional criou um movimento comportamental rebelde genuíno.

Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre o tema Jovem Guarda? O que despertou seu interesse por essa época? No TCC da graduação eu estudei o ideal do American way of life, o estereótipo da “esposa perfeita” e como a influência desse estilo chegou no Brasil. No desenvolvimento da pesquisa do mestrado comecei a perceber, por meio da publicidade dos anos 60, que as “famílias perfeitas” haviam desaparecido e outro personagem havia tomado seu lugar: o jovem. Assim, já tendo interesse na música dos anos 1960, principalmente na dos Beatles, comecei a analisar as relações entre música e a juvenilização na moda, coincidentes com o surgimento do prêt-à-porter.

Quanto tempo durou a pesquisa e produção? Foi um processo linear ou as ideias foram sendo moldadas conforme o estudo do tema? A pesquisa teve início em 2007, no mestrado. Não foi linear! Fui guiada pelas evidências que encontrava em minhas fontes: livros e revistas. Por exemplo, inicialmente, meu recorte era o contexto internacional: Estados Unidos e Inglaterra, principalmente. Fui percebendo a necessidade de analisar o contexto brasileiro, vendo que essa construção da ideia de juventude também estava acontecendo aqui e de uma maneira particularmente interessante – e ainda pouco estudada.

O que mais te fascina na Jovem Guarda hoje, depois de escrever o livro? E o que mais te fascinava antes? Basicamente, o que mudou com o maior envolvimento com a pesquisa? Perceber o papel da Jovem Guarda como agente da transformação de comportamento nos anos 1960. O programa de TV Jovem Guarda, apresentado por Wanderléa, Roberto e Erasmo Carlos foi vanguardista no que se refere aos figurinos e cenário. Até a Jovem Guarda, os ídolos juvenis eram geralmente internacionais.

“Tivemos alguns sucessos para esse público já nos anos 50, como Celly Campello e Sérgio Murilo, mas os integrantes da Jovem Guarda apresentavam uma inovação estética e comportamental.”

Qual é a força da Jovem Guarda sobre a moda hoje? Ela continua influenciando o consumo no Brasil? Nos anos de 1960, o quanto ela foi importante, enquanto agente de moda, para aquela geração? A Jovem Guarda nos trouxe a estética minimalista dos mods britânicos e também a psicodelia da Swinging London e dos hippies norte-americanos. Os anos 60 são referência constante na criação dos estilistas contemporâneos. Um exemplo recente é a coleção primavera-verão 2013 do Marc Jacobs pra Louis Vuitton: os 60’s são a inspiração que aparecem na silhueta, na padronagem geométrica, nos acessórios, no cabelo e maquiagem. Se pensarmos nos ídolos teens, com o cabelo com franja, as roupas coloridas e justas, essas referências vêm da Jovem Guarda. O movimento foi muito importante como possibilidade de modelo e lazer para um grupo que então se configurava no Brasil: o dos jovens. Além de ter feito parte da revolução comportamental dos anos 60, inovou lançando uma linha de produtos e roupas prêt-à-porter para o público adolescente, como a calça calhambeque.

Os anos 60 são referência constante na criação dos estilistas contemporâneos.

Wanderléa escreveu a apresentação do livro. Como foi o primeiro contato e a conversa com ela? Entrei em contato com a Wanderléa por e-mail, contanto um pouco sobre o livro e convidando-a para fazer parte do projeto. Ela respondeu e mostrou-se bastante animada com a ideia. Logo me enviou um texto emocionante, em que fala sobre como o livro foi importante para que pudesse perceber o alcance da atuação dela e de outros artistas no contexto dos anos 60.

Pode-se dizer que na época de maior furor da Jovem Guarda Wanderléa era sua maior representante de moda e comportamento femininos? A Wanderléa tem um papel marcante como modelo de comportamento feminino na transição dos anos 60. Ela era a Ternurinha, mas ao mesmo tempo tocava guitarra e usava minissaia, desafiando a moral e os “bons costumes”. No filme Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa (dir.: Roberto Farias, 1970), Wanderléa é uma heroína bastante ousada: viaja pelo mundo na companhia de dois homens (Roberto e Erasmo Carlos), luta contra bandidos, dirige um carro, participa em condições iguais das aventuras com os meninos. Todas essas ousadias foram formas de questionar e transformar o papel feminino.

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* Ilustração de Douglas Do Amaral