Aqui, as criadoras do projeto Nós do Bordado contam a experiência que tiveram usando o livro da Estação, Vestidos para lembrar e uma história para contar, escrito por Lais Fontenelle Pereira e ilustrado por Sara Goldchmit. No texto de Lúcia e Giannina, um relato delicado de um trabalho pra se admirar.

“Falando um pouco sobre o Nós do Bordado: somos uma dupla de amigas, Lúcia Galvão Moura, alagoana, e eu, Gianinna Schaeffer Bernardes, gaúcha morando em Maceió há 7 anos. Nos conhecemos em  um curso de contação de histórias, em 2009, durante o qual identificamos duas paixões em comum: pelos livros e pelos bordados. Nós duas temos histórias de afeto relacionadas ao bordado, desde nossas infâncias, com avós, mães, tias. A partir dessas paixões, um bordado de idéias começou a ser feito e decidimos criar uma proposta de trabalho que integrasse as histórias e os bordados. Então, em 2010, criamos o Nós do Bordado, um espaço-tempo para ouvir, contar e bordar histórias.

O bordado é proposto como uma forma de expressão, das lembranças, das emoções. Então as produções são bem autorais, cada bordado conta uma história.

Para mediar esse processo, utilizamos diversos elementos facilitadores, como a literatura, a poesia, a música, em dinâmicas sensibilizadoras e lúdicas.

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Temos trabalhado com grupos diversos, de várias idades: crianças, jovens, adultos, terceira idade. A proposta de trabalho é planejada para se adequar e/ou atender as demandas de cada grupo. Por exemplo, trabalhamos com um grupo de mulheres em uma Unidade Básica de Saúde propondo o diálogo entre a literatura e o bordado como forma de promover saúde, tirando o foco das doenças. No outro grupo, trabalhamos a memória e a iconografia de uma cidade que já passou por três enchentes terríveis, viu sua história ser levada pelas águas, nele o bordado foi proposto como forma de registrar a cidade que ficou na lembrança e a própria cidade atual.

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O livro “Vestidos para lembrar e uma história para contar” entrou em cena com um grupo de mulheres que não tinha uma demanda específica a ser trabalhada. O desejo era ‘contar algo da própria história através do bordado’. Muitas vezes nossos grupos contam com homens, de qualquer idade, pois os grupos são abertos a qualquer pessoa que se interesse. No caso do grupo de Arapiraca, cidade do interior de Alagoas onde trabalhamos com o livro da Estação, havia apenas mulheres. Estivemos reunidas com esse grupo durante dois finais de semana, e durante as oficinas alternamos experiências de estimulação dos sentidos, brincadeiras corporais, atividades com músicas, poesias, filmes.

Sabendo que vestidos são peças importantes no guarda roupa feminino, que toda mulher tem histórias de afeto relacionadas a vestidos, decidimos trabalhar esse tema.

A história contada no livro pela Laís e ilustrada pela Sara caiu como uma luva! Fizemos uma leitura compartilhada da história do livro, seguida de uma roda de conversa em que cada uma pode contar uma história pessoal relacionada a um vestido, depois propusemos que elas desenhassem esse vestido da memória em um papel, desenho que posteriormente foi passado para o tecido, onde então se fizeram os bordados.

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A grande maioria delas nunca havia bordado, algumas não bordavam desde a juventude. Histórias permeadas de afeto e emoção foram compartilhadas. Uma delas trouxe a recordação de um vestido especial que sua mãe fez, de cetim de algodão verde água, para usar no casamento de sua madrinha. Outra lembrou do vestido que usava quando conheceu o amor de sua vida, um amor que durou 43 anos. Outra, um vestido de crochê feito por sua irmã para ir à procissão de São Sebastião. Enfim, lindas histórias foram contadas, desenhadas e bordadas. Pedimos também a elas que escrevessem essas histórias que contaram.

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Compartilhamos com vocês um pouco desse material. Os bordados se constituem em narrativas que contam histórias. A preciosidade do tempo se registra em pontos e contos. Histórias de vários ‘eus’ passam a ser histórias de ‘nós’. “