Erico Fernando de Oliveira é professor do departamento de Comunicação Social da PUC Minas em Poços de Caldas-MG e atua como designer e produtor gráfico há 17 anos. Ele fez a direção de arte e capa para o livro Sintomas e Fantasias no Capitalismo Comunicacional onde também contribuiu como autor. O livro foi lançado em julho pela Estação das Letras e Cores Editora e teve a organização dos Professores José Luis Aidar e Vinicius Prates. Como suas pesquisas atualmente discutem as questões do papel social dos nerds — e acreditamos ser uma referência pouco discutida e geradora de inúmeras reflexões — solicitamos ao professor Erico sua participação aqui em nosso blog. E ele contribuiu com o texto abaixo.

“A cultura Nerd tornou-se um simulacro de consumo”

Quando eu era garoto, desde muito pequeno, era chamado de Nerd pelos outros garotos da escola pública e periférica em que estudava. Além do bom desempenho escolar, outros dois fatores contribuíam para esse rótulo: usava óculos de aros grossos e era franzino (por ter entrado na escola adiantado, era menor que todos os outros alunos da minha turma). Salvo isso, o resto é ficção, nunca fui trancado dentro de um armário ou tive as calças arriadas em público. A questão aqui é: o rótulo soava ofensivo. Eu não me reconhecia Nerd. Não me identificava com a patética caricatura que o cinema hollywoodiano havia construído e que está na base dos ataques que os jovens estudiosos e desajeitados de então sofriam.

Pouco mais de duas décadas se passaram e hoje as pessoas se orgulham de serem rotuladas como nerds. Inclusive se autointitulam como tal. Porém, não nos enganemos, não se trata de ter havido uma abertura no tecido social que incluiu esses seres esquisitinhos como formas possíveis (e aceitáveis) de subjetividade. Trata-se simplesmente da constatação de que, num mundo altamente dependente de tecnologia, os esquisitos venceram. Suas ideias os tornaram milionários da noite pro dia. Sua inteligência acima, da média lhes garantiu as melhores posições em vestibulares e concursos públicos. Sua cultura foi midiatizada e colonizada e hoje tornou-se um nicho de mercado altamente rentável.

Como escrevi no capítulo que produzi para o livro Sintoma e Fantasia no Capitalismo Comunicacional, a ideia é que existe um esforço midiático em apresentar a cultura nerd como uma prática cultural relevante, visto que o mundo hoje apresenta uma ‘nova economia’ dinâmica, flexível e extremamente célere, baseada em tecnologia e ciência.”  Não se trata mais de uma contracultura marginal e sim de um simulacro de consumo. Nesse trabalho, atento para o fato de que

“essa midiatização é incapaz de abranger todo o espectro do que pode ser descrito como uma cultura nerd, oferecendo apenas um recorte dos atributos que são desejados dentro de uma (bio)política de estado neoliberal, que recalca a animosidade entre nerds e não-nerds e fomenta manifestações de adesão superficial à cultura nerd como estratégia de (falsa) inclusão pelo consumo e pela estética”.

E, claro, no fundo, a animosidade que existia entre aqueles que são nerds e aqueles que não o são, continua existindo, mas há agora também a animosidade entre aqueles que o são e aqueles que fingem sê-lo, mas não são.

 

Erico Fernando de Oliveira – Bacharel em Design e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). Recebeu menção honrosa no 3. Prêmio Compós de Teses e Dissertações. Professor do depto. de Comunicação Social da PUC-Minas em Poços de Caldas autor de um dos textos do livro: Sintomas e Fantasias no Capitalismo Comunicacional  da Estação das Letras e Cores Editora.

 

Sobre imagem dr. Spok que ilustra o post veja:
Especial Dia do Orgulho Nerd – Melhores obras da cultura nerd.