Livro A Periferia Pop na Idade Midia

O livro A Periferia Pop na Idade Mídia, de Nízia Villaça – Estação das Letras e Cores Editora, surge a partir do projeto de pesquisa “Rio de Janeiro, moda e periferia” que analisa como a mídia estrutura nossa percepção e reconhecimento sobre temas relacionados ao centro/periferia nos centros urbanos e, especialmente, na cidade carioca.

A publicação teve apoio da Fundação Carlos Chagas – Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – Faperj, e contém oito capítulos que tratam de políticas culturais, diversidade e o protagonismo periférico, sobre o imaginário periférico — comunicação, identidade e consumo e, ainda, capítulos dedicados ao enfrentamentos e desfronteirizações com recortes sobre a moda funk e o mapa urbano, os guetos de luxo, entre outros.

O texto ágil, que dialoga com diferentes autores e com muitas inserções jornalísticas, analisa a estrutura da comunicação dedicada à favela e à periferia de um modo geral, suas expressões recorrentes, suas generalizações marcadas pelo discurso hiperbólico da alegria/criatividade e da violência/dor que a transforma a periferia midiatizada em uma versão pop embalada por uma pegada publicitária.

A visibilidade performática da periferia buscada na sociedade da informação e do consumo atravessa a indústria cultural e apresenta  a moda, o modo de vestir, a gestualidade (movimentos de dança) e na linguagem (letras de músicas), inventividade em novas gírias, um dos vetores principais tratados neste livro.

Repaginando a periferia: a mediação fashion

Foto Periferia Pop realizada no Terreirão, Rio, em 2011.
Fotos: Marcos Vianna. Realizadas no Terreirão, Rio de Janeiro, dezembro de 2011.

A expressão “cultura da periferia” é utilizada desde os anos 1980 nos movimentos sociais, na mídia e nas pesquisas acadêmicas e vem passando por um intenso processo de metamorfose semântica. Se em 1980 morar em periferia poderia ser considerado vergonhoso, a partir do boom do hip hop nos anos 1990 a periferia torna-se cada vez mais valorizada simbolicamente.

Há desdobramentos como o nascimento de movimentos da literatura periférica e da semana de Arte Moderna da Periférica, em São Paulo por exemplo ou, no  Rio de Janeiro, a Cooperifa que promoveu sarau e mistura rappers com cordel, entre outros apresentando com vitalidade, novos movimentos culturais

A periferia passa a ser mais uma indicação de categoria social do que lugar distante do centro. E se expande em redes de articulação de coletivos de outras regiões da cidade.

É neste contexto que as marcas começam a buscar nas ruas grande parte de sua informação porque os mercados não são definidos por estruturas demográficas e sociais, e, sim, por significados culturais que ligam uma série de mercadorias e atividades numa imagem coerente e que interessa cada vez mais culturalmente e socialmente. As culturas urbanas perdem seu aspecto físico e geográfico e passam a contribuir com a publicidade midiática. A moda, com sua agenda veloz, oferece uma permanente negociação de novos estilos e nichos de consumo. E a estética da periferia participa desta dinâmica.

A divisão centro versus periferia não sublinha uma divisão ideológica, apenas reforça identidades. As identidades especificam origens, memórias, construções da linguagem sensoriais e estéticas.

“É importante entender que o embate centro versus periferia não deve ser necessariamente um embate (…) haverá um momento em que a periferia será centro”. É importante apenas reconhecer as diferenças porque isso só é possível se reforçarmos essa identidade” (p. 158)

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Fotos: Marcos Vianna. Realizadas no Terreirão, Rio de Janeiro, dezembro de 2011.

Discute-se no livro A Periferia Pop na Idade Mídia a produção da diferença, o protagonismo periférico, a mediação fashion como mola do processo e a noção da periferia tanto no âmbito nacional quanto no âmbito latino-americano. Ao tratar do corpo, moda e espaço amplia-se a discussão para além da favela, evidenciando que as separações ocorrem nos espaços mais insuspeitáveis, criando a diferença entre o mesmo, o próximo e o distante como alteridades simbólicas, como demonstram análises em lugares variados da cidade.

A referência à estética carnavalizante de nossa Idade Mídia propõe comentários sobre os mecanismos produtores da espetacularização da notícia. O livro A Periferia Pop na Idade Mídia sublinha a separação, mas também aponta as possibilidades de convergência  em direção à desfronteirização”.

No momento em que se vê a periferia ocupando  cada vez mais as reflexões sociais, de resistência, de insurreição cultural, de vitalidade frente à necessária tomada de posição e de território, vale a pena entender como o morro, a favela, a periferia é colocada midiaticamente à margem, ou na centralidade de experiências estéticas, culturais e de vida.