Em uma área com bibliografia escassa, o livro Processo de Criação em Grupo: Diálogos, de Cecília Almeida Salles vem ampliar o campo de ação da chamada “crítica de processos de criação” e propor uma reflexão teórica sobre a complexidade que envolve os processos de criação em equipe e, de algum modo também conhecido como coworking.

Nesta entrevista para a Editora Estação das Letras e Cores, a autora comenta sobre o novo livro no qual a pesquisa dá especial destaque às tendências que se manifestam nos processos, a construção de projeto artístico e das práticas comunicativas em trabalhos criativos que se desenvolvem de modo colaborativo. “Tenho me dedicado a acompanhar e refletir sobre os processos criativos, desde a minha tese de doutorado, no início dos anos 90”, reforça.

Para a pesquisa foram analisadas várias publicações como diários, cadernos, sites, blogs e cartas e acompanhamento de algumas significativas produções. Cecília observa que há diferentes portas de entrada para se discutir o processo em grupo e, por isso, ressalta a importância do estabelecimento de nexos entre a diversidade de registros e sobre como os membros do grupo interagem em nome de um projeto em comum.

Cecília Almeida Salles é professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC/SP. Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Processos de Criação.

Confira abaixo a entrevista para o blog da Estação das Letras e Cores Editora:

O que a motivou a pesquisar o tema de seu  novo livro Processo de criação em grupo: diálogos?
A escritura do livro foi movida por uma série de questões. Havia o desejo de ampliar meu conhecimento sobre processos de criação, sabendo que, embora minhas outras publicações tragam exemplos de artistas que trabalham no teatro ou dança, eu ainda não havia me debruçado sobre suas especificidades.

Ao mesmo tempo, observava que a bibliografia nessa área era bastante escassa. Há publicações sobre determinado grupo teatral, um cineasta ou designer específico, só para citar alguns exemplos, mas não uma visão mais ampla sobre os processos de criação.

Há também uma necessidade crescente de formação de equipes por motivos diversos. Por vezes, movida pela relação com os meios digitais e outras por determinadas buscas artísticas, como o caso dos coletivos de fotografia.

Design Capa:
Camila Mangueira Soares
Projeto gráfico: Marcelo Max

Ao mesmo tempo, sob o ponto de vista teórico, havia uma inquietação diante do modo de lidar com a discussão sobre esses processos, regida sempre pela dicotomia entre processos individuais ou em grupo. Quanto mais entrava no contexto do pensamento da complexidade, mais observava que essa oposição era frágil. Por isso, dedico um dos capítulos do livro a essas reflexões.

Quais são as fontes que documentam os processos quando o assunto assume tal complexidade – participação em grupos criativos para diferentes áreas de atuação?
Ao longo da pesquisa, encontrei uma grande variedade de documentos, públicos ou privados, oferecidos pelos artistas, isto é, arquivos da criação. Vou citar alguns exemplos dos documentos, que aparecem na discussão que Processos de criação em grupo: diálogos propõe.

No caso de publicações, temos  Dos Cadernos de Sophia Jobim (também da Estação das Letras e Cores Editora), os diários do ator David Carradine, mantidos ao longo da filmagem de Kill Bill e Cadernos de atuação da Mundana Companhia. Há também os sites ou blogs de grupos de teatro que disponibilizam esses registros.

Como exemplo de material privado, tive acesso às cartas que o cineasta Evaldo Mocarzel mandava para os montadores de seus documentários, sobre os processos de criação de um grande número de grupos de teatro de São Paulo. Além disso, ele ofereceu os diferentes cortes pelos quais os filmes passaram.

Como se vê há diferentes portas de entrada para se discutir o processo em grupo, ou seja, informações sob o ponto de vista do diretor, ator, figurinista etc. Ao mesmo tempo, pude ter acesso a diferentes momentos do processo do documentarista.

Os documentários de Mocarzel e de outros cineastas dedicados a explorar processos de criação, de formas diversas, também atuaram com outros possíveis documentos e geraram, por sua vez, um capítulo do livro.

Destaco a importância do estabelecimento de nexos entre essa diversidade de registros, adensando assim o conhecimento sobre como os membros do grupo interagem, em nome da construção de um projeto em comum. Podemos observar, assim, o pensamento do grupo em construção.

Os documentos é que dão os rumos da pesquisa e das teorias que parecem ser mais adequadas, para a leitura dos aspectos dos processos de criação observados.

É importante estar alerta àquilo que os artistas, designers, jornalistas podem nos oferecer, sem expectativas pré-estabelecidas sobre o que podemos encontrar.

Desde quando vc se ocupa em acompanhar e refletir sobre processos criativos?
Tenho me dedicado a acompanhar e refletir sobre os processos criativos, desde a minha tese de doutorado, no início dos anos 90, sobre a processo de criação do escritor Ignácio de Loyola Brandão.

Movida pela paixão de ampliação de conhecimento sobre a criação, minhas pesquisas (e a do meu Grupo de Pesquisa em Processos de Criação da PUC/SP) tomaram dois rumos que se entrelaçam: a extensão do olhar para além da literatura, passando para as artes em geral (artes visuais, teatro, dança, cinema etc.), interagindo com o campo do design (moda, objetos etc.) e da comunicação social (jornalismo e publicidade).

Ao mesmo tempo, preocupava-me com a ênfase somente nas especificidades dos agentes criativos estudados, pois observava que há questões recorrentes nos percursos. Esta vertente das pesquisas levou a formulação de uma possível teorização sobre processos de criação. Do diálogo da semiótica peirceana, com o conceito de rede de Pierre Musso e com pensadores da cultura, como Edgar Morin e Lotman, surgiu o conceito de criação como rede em construção.

São propósitos de trabalho que se retroalimentam.

A pesquisa gerou outras publicações: algumas dedicadas à crítica dos processos de criação e outra aos estudos de caso.

O livro Processos de criação em grupodiálogos, depois de oferecer aos leitores uma imersão em uma grande diversidade de documentos de processo, apresenta tal conceito de criação, que venho formulando ao longo do tempo, para propor uma leitura crítica sobre alguns dos nós da rede dos processo em equipe, em outras palavras, algumas das especificidades desses processos.

Links de alguns projetos citados pela autora:
Projeto Aisthesis
Cia. Fragmento de Dança