Por Ananda Carvalho, professora, crítica de arte e curadora

Extremidades: experimentos críticos é o novo livro da Estação das Letras e Cores Editora organizado pela crítica, curadora e pesquisadora Christine Mello que desenvolve pesquisas desde 2016 sobre a proposição de instrumentais de leitura para experiências artísticas e midiáticas.

O livro concentra-se na elaboração da abordagem das extremidades, considerando os procedimentos de desconstrução, contaminação e compartilhamento.

Essas questões são desenvolvidas em dois ensaios de Christine: “Extremidades: experimentos críticos” e “Experiências das extremidades”. Procura-se refletir, questionar e mapear como esses experimentos críticos possibilitam análises de linguagens e objetos “regidos pela diferença e diversidade”, de acordo com a autora. Com esse objetivo, o livro engloba mais seis artigos, resultado do trabalho do Grupo de Estudos Extremidades: redes audiovisuais, cinema, performance e arte contemporânea.

Além do ensaio de Christine Mello sobre os procedimentos criativos do artista Lucas Bambozzi, outros dois textos analisam proposições artísticas. Alessandra Bochio e Felipe Merker Castellani propõem reflexões sobre a instalação “Paisagens fluidas” (desenvolvida pelos mesmos autores), considerando a participação do público e a intervenção na paisagem urbana atravessados pela noção de dispositivo. Juliana Garzillo analisa o trabalho de Brian Eno, “77 Million Paintings”, que já foi materializado como software, DVD, instalação audiovisual e intervenção urbana.

pesquisadora Christine Mello
Christine Mello é doutora, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professora na instituição. Além de organizar Extremidades: experimentos críticos (2017) é autora de Extremidades do vídeo (2008) e coautora de Tékhne (MAB, 2010).

Os outros três artigos do livro concentram suas leituras em objetos da área do cinema e do documentário contemporâneos. Cyntia Gomes Calhado analisa o filme “Abril despedaçado”, de Walter Salles, refletindo sobre como o efeito vídeo cria “zonas fronteiriças entre as plasticidades da imagem e da narrativa”. Felipe Ferreira Neves parte de “Rua de mão dupla”, de Cao Guimarães, para observar a “potência do dispositivo como criador de experiências e como um sistema de escritura […]” . Lucas Lespier relata os processos de criação de “O muro da vergonha”, um documentário sem elaboração de roteiro prévio, de autoria coletiva, em que os realizadores são parte do grupo retratado, e que enfatiza o registro como militância e a poética do encontro.

Para saber mais sobre a abordagem das extremidades, conversamos com Christine Mello:

Ananda Carvalho: Você usou a noção de extremidades inicialmente na sua pesquisa de doutorado que foi publicada no livro “Extremidades do vídeo”, em 2008. Ali, os procedimentos de desconstrução, contaminação e compartilhamento foram articulados para discutir a linguagem videográfica. Agora, a noção de extremidades é ampliada e redimensionada como um “instrumental de leitura” de diversas linguagens. O que você poderia relatar sobre o processo de pesquisa que resultou no livro que está lançando agora?

Christine Mello: Eu observo que muitas pesquisas acadêmicas são atravessadas por estágios conservadores: questões de conservação da forma e situações estabilizantes das linguagens artísticas e midiáticas. Essa inquietação demandou encontrar os lugares em que a forma é instável.

Esta pesquisa que estou desenvolvendo vem do desejo de criar uma aproximação com objetos que desestabilizam as linguagens. Se o vídeo ou os meios eletrônicos são disruptivos para a forma, a questão que ecoa agora é como gerar situações e correlações com o que estamos chamando de objetos das extremidades. Trata-se do desdobramento de uma pesquisa em outra.

Extremidades: experimentos críticos Christine Mello
Extremidades: ativadores de leitura para analisar um objeto que tenha capacidade de colocar em contato muitas linguagens e criar com isso uma ressignificação

A pesquisa das extremidades começou a ganhar corpo quando entrei no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica. A Professora Ana Claudia Mei Alves de Oliveira chamou a atenção para o fato de haver um instrumental de leitura das extremidades, e o artista e pesquisador Claudio Bueno observou a força da abordagem das extremidades para pensar o contemporâneo. Então, passei a refletir sobre o que significam essas extremidades. Que potência tem isso para além daquele objeto já estudado em “As extremidades do vídeo”?

Pode-se observar que é recorrente na época contemporânea os objetos de pesquisa passarem por hibridizações e se organizarem numa linguagem que não é passível de ser totalmente denominada. E não falo apenas das linguagens que estão em conflito ou instáveis na contemporaneidade.

O conflito e a instabilidade permeiam a vida cotidiana, os espaços sociais onde essas linguagens transitam. Então, passei a observar as extremidades como sistema vital, para além do sistema dos signos.

AC: No livro, você apresenta a experiência das extremidades como um jogo de leitura que “diz respeito a observar em que medida o trabalho em análise tem lugar como quebra de referências estáveis diante da experiência estética, como um campo de expansão das linguagens e experimentação artística, como um modo de confrontar e questionar lógicas hegemônicas, centralizadoras, totalizantes, que possuem acento no espaço da experiência sensível” (p. 29 e 30). Poderíamos falar de uma metodologia de pesquisa? Você poderia detalhar mais como é construída a abordagem das extremidades?

CM: Não diria que as extremidades são um método, mas, sim, ativadores de leitura para analisar um objeto que tenha capacidade de colocar em contato muitas linguagens e criar com isso uma ressignificação. As extremidades são vetores de leitura em que o pesquisador coloca o objeto em estado de tensão e questiona: o que está sendo desconstruído com isso? É uma pergunta muito aberta, mas há interesse que ela seja aberta para também colocar em jogo o que está sendo desconstruído no espaço social e na realidade cotidiana. A questão não se fecha só na linguagem, e passa-se a observar as desconstruções que o trabalho provoca para além dele mesmo.

Os modos de pensar a desconstrução incluem um movimento de deslocamento de sentidos e a quebra de referências estáveis. Ao deslocar o sentido, você o ressignifica e coloca-o em outro lugar. É um jogo aberto que você pode ir aprofundando. Ou seja, os vetores de leitura são um jogo de perguntas que o pesquisador vai levantando sobre o objeto. E, se são perguntas, é sempre um espaço de indeterminação, porque você não sabe as respostas. Às vezes, aquilo que desconstruía há 30 anos é diferente hoje, mesmo sendo o mesmo objeto. O jogo está sempre aberto e é sempre indeterminado, imprevisível.

Considerando esses procedimentos, não é possível pensar as extremidades como método, pois essa perspectiva traria uma noção mais organizada de leitura. A proposta das extremidades abre espaço para que o crítico se posicione segundo a perspectiva de sua subjetividade. Não existe uma única resposta. Você pode pensar a desconstrução e esses deslocamentos em vários níveis.

A abordagem das extremidades engloba, além do procedimento de desconstrução, os de contaminação e compartilhamento. A contaminação traz, pela própria natureza, uma tensão.

Pode-se observar vários níveis de contaminação: encontro entre diferenças, entre subjetividades, processos de produção de alteridades, diálogos entre linguagens diferentes. Desse modo, é interessante perceber que a contaminação pode gerar ao mesmo tempo um lugar de tensão e um de encontro entre essas tensões.

Já com o compartilhamento como vetor de leitura, o pesquisador coloca em xeque práticas colaborativas: compartilhamento de experiências, sensações, arquivos, ambientes virtual e físico, relações de convivência, espaço de troca etc. Compartilhamento é mais do que um dispositivo que incorpora uma prática tecnológica; é um dispositivo de experiência sensorial. O pesquisador questiona de que forma esse compartilhamento está sendo realizado no trabalho e que potências há nisso. Esse procedimento põe em xeque os regimes de autoria, coloca em jogo uma autoria coletiva e amplia o caráter do trabalho numa dimensão contemporânea.

Resumindo, a abordagem das extremidades engloba a prática crítica como um jogo de leitura em que o pesquisador lê e problematiza o objeto. Ou seja, trata-se de disparadores que tensionam o objeto, ampliando suas possibilidades de fala, não sobrepondo-o à teoria. Então, num projeto de pesquisa acadêmico, quando for citado o método de pesquisa, sugiro escrever “pela abordagem das extremidades”, e não “metodologia das extremidades”.

AC: O livro engloba textos de pesquisadores do Grupo de Estudos Extremidades: redes audiovisuais, cinema, performance e arte contemporânea, que você coordena. Pode nos contar um pouco mais sobre ele?

CM: O grupo organiza-se a partir dos estudos relacionados a práticas artísticas e midiáticas dentro de uma linha de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Alguns dos pesquisadores são vinculados a outras instituições e vieram em busca da leitura das extremidades, e outros são orientandos. O interesse dos participantes vem da dificuldade de encontrar, nas teorias e metodologias tradicionais de leituras, como falar das hibridizações. Todo mundo sabe que o hibridismo é uma característica recorrente das práticas artísticas e midiáticas, mas como falar dos processos que o envolvem é uma questão.

O grupo se organizou para escrever o livro, considerando um encontro de interesses em torno da abordagem das extremidades. As reuniões do grupo foram acontecendo com foco nos interesses da escrita. Em um primeiro momento, começamos a perceber cruzamentos entre as pesquisas dos participantes e a discutir como encontrar um caminho de leitura crítica. Em uma segunda fase, todos leram e discutiram os textos de todos. A dinâmica dos encontros consistia na apresentação de um relator que colocava em xeque o texto do colega e depois abria a discussão. Na terceira fase, os textos foram reescritos para chegar à etapa final.

Os encontros do grupo continuam (novos autores já estão trabalhando textos para um segundo livro) e são abertos para quem tem interesse em trabalhar a escrita, procedimento ativador do grupo.