A Profa. Dra. Maria Cristina Volpi é a nova autora da Editora Estação das Letras e Cores. E como não podia ser diferente, a pesquisadora traz para os amantes de cultura de moda, trajes e figurinos, um livro que analisa as práticas vestimentares da burguesia carioca até meados do século XX.

Com uma vida acadêmica dedicada às pesquisas no campo de história da arte, moda e trajes, a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra em Estilo Urbano: modos de vestir na primeira metade do século XX no Rio de Janeiro como o padrão, importado pela elite carioca em visitas aos grandes centros difusores da época, penetrou as camadas urbanas cariocas e influenciou os usos e costumes das vestimentas. Maria Cristina Volpi revela ainda em sua nova obra o modo que o vestuário ilustrava os hábitos sociais, refletindo a condição social das diversas frações urbanas.

Em conversa com o blog, a Prof. Dra. Maria Cristina Volpi fala um pouco mais sobre o projeto e o que cada página traz como encanto para os amantes da temática em questão.

Capa Estilo Urbano_ Livro Maria Cristina Volpi
Capa de Estilo Urbano: modos de vestir na primeira metade do século XX no Rio de Janeiro, da Estação das Letras e Cores
  1. Como apresentaria o seu livro? Quais são as perspectivas que ele traz diante da temática vestuário e sociedade?

O conteúdo do livro nasce da minha pesquisa para minha tese de doutorado, desde aquele momento iniciei um processo de análise que foi se constituindo como base referencial de análise à documentação imagética, fontes primarias e que podem ser muito exploradas em vários estudos. Este livro tem uma particularidade: o fato de eu ter analisado, por meio de um acervo fotográfico familiar, o modo real como as pessoas se vestiam na primeira metade do século XX, na cidade do Rio de Janeiro. Acho que esta obra pode contribuir para o entendimento das formas de sociabilidade, associadas aos usos do vestuário. A partir da análise das fotografias, podemos vislumbrar não apenas os modos de vestir, mas também como eram os hábitos de consumo, de lazer, as viagens, as expectativas sociais. É possível acompanhar as trajet&oacut e;rias pessoais e profissionais.   Neste sentido, no Brasil, temos um acervo de imagens que podem ser exploradas e estudadas. O livro oferece metodologia para uma cuidadosa análise de documentação imagética.

  1. Como é ser uma pesquisadora que tem a moda como objeto de estudo no Brasil?  Quais foram os desafios encontrados quando pensamos no campo de pesquisa, e de documentação e registros e p que contam a historiografia da moda? Quais os documentos que você organiza e utiliza neste trabalho?

Eu adoro pesquisar a moda no Brasil. É um assunto que me encanta. Os desafios para pesquisa de moda no Brasil são as fontes primárias. De modo geral, não são muitos os acervos de vestuário disponíveis para pesquisa no Brasil. Os documentos que utilizei no trabalho foram séries fotográficas, manuais de etiqueta e manuais de corte e costura. Cada uma dessas fontes me forneceu dados sobre a maneira como as pessoas se vestiam, quais eram os principais eventos sociais, como as pessoas deveriam se vestir nas diferentes ocasiões e quais eram os tipos de roupa usados. A análise destes materiais e a possibilidade de reconstruir significados é como articular e estruturar realidades.

Acervo Maria Cristina _ Pesquisa
Registro emocional: foto do acervo familiar da autora Maria Cristina Volpi que serviu como fonte de pesquisas para o livro Estilo Urbano.
  1. Como a pesquisa está centrada no Rio de Janeiro, poderíamos destacar que falando de Rio falamos também da moda brasileira? Quais criações ou momentos tivemos o Rio de Janeiro como local propulsor de inovação, criatividade ou economia?

Desde o século XIX no Brasil, o Rio de Janeiro era o principal centro difusor de modelos em termos culturais. Como centro administrativo, a capital brasileira era naturalmente o elo entre as várias regiões nacionais e as capitais de outros países. Centro da vida política e cultural, o Rio de Janeiro era também o cenário para a moda. Abrigando uma elite política e administrativa que tinha enorme importância como formadora de opinião, a cidade teve um papel preponderante como irradiadora dos modelos do vestuário europeu então em voga.

  1. O significado de vestir mudou? Como você percebe a relação do indivíduo com a roupa nos tempos de hoje com o do período que você retrata em seu livro? 

Sim, desde a década de 1960 os significados do vestir mudaram radicalmente na cultura ocidental. Hoje em dia, além do amplo acesso a mais opções de objetos de vestuário, as regras do vestir são mais flexíveis do que eram no período estudado, ou seja, a primeira metade do século XX. Uma outra diferença é que as influências da moda não se dão mais de maneira tão hierárquica, de forma vertical, mas sim vêm de vários pontos da sociedade.

  1. A uma parte curiosa e bem reflexiva no livro que diz que “falar do vestuário é falar do corpo humano, pois ele completa nas características plásticas da roupa”. Como entender isto no sentido social?

A roupa é uma possibilidade das pessoas se expressarem criativamente no cotidiano.  O corpo é um instrumento do homem onde ele se expressa social e individualmente.

  1. Diante dos seus estudos e pesquisas, quais foram os momentos mais emblemáticos que mudaram a relação do homem com o modo de vestir? Quais momentos que a moda ficou realmente marcada na sociedade como agente representativo de um processo de mudança?

Na história do vestuário existem muitos momentos de inflexão entre as técnicas, a circulação e inovação de materiais e de influências culturais. Por exemplo no Renascimento, com a expansão marítima e a entrada de materiais desconhecidos no mercado europeu, como é o caso das penas de pássaros tropicais. Ou na virada do século XVIII para o XIX com as revoluções industrial e francesa, que se refletiram numa nova autoimagem, mais calcada na expressão do individualismo e na praticidade característica da nova burguesia industrial em ascensão.

  1. Além da leitura deliciosa, plena de oportunidades de aprendizados, seu livro poderia ser indicado para qual tipo de recurso de estudo e pesquisa?

Indico o meu livro para estudantes de moda, figurino, história, sociologia, até mesmo estudantes de fotografia.